sábado, 31 de outubro de 2009

Cicatrizes

Cicatrizes fecham
mas renascem
[na memória]

Como flores sem raízes
que podemos colher.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Sete florações

Ensaio estar vivo em dezembro.
Arranho as mãos
nos pontos duros de tua pele.

Chegam sete florações
de tua parte mais íntima
em uma mesma tarde.

Sigo como a espuma
de todos os copos
na última noite de dezembro

(Embora seja fevereiro
em meu portão).

Princesa Isabel, 14.08.2009.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A travessia

O silêncio rasteja entre as sobras
do dia.
Carrego palavras cansadas
em um balde vazio.
Sussurro algo menor que o silêncio.
Anoitece sempre.

Seguro o balde
(é tudo o que me resta)
e mais tarde haverá a sede.
Beberei como quem pensa em dizer:
a travessia,
a travessia,
sim, a travesssia...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cacasiana

Daqui a pouco
volto para mim.

Esse amor comigo
nunca chegou ao fim.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Doação

Vou doar minhas cicatrizes.
Sobrará pouco do corpo
a alma será entregue
completamente.

Depois, o riso
o objeto mineral
atento e espumoso.

Que sei de mim?

Que coisas minhas
posso doar sem ter?

Minhas cicatrizes
são apenas manchas
no pó da eternidade.

As estrelas riem
o sol exaspera
em sua jornada infinita.

Os animais me olham
com desdém e indulgência.

Não, melhor nada doar.
Olhar minhas cicatrizes
como quem olha um armazém
de secos e molhados
escolhe tudo
e não leva nada
e segue completamente.

Mercado público de São José do Belmonte, 27.05.09

sábado, 23 de maio de 2009

A história dos meus dedos

A história dos meus dedos
tem milhares de sombras
formas desiguais,
erupções, cortes.

A história dos meus dedos
tem acenos para o Atlântico abstrato
o desejo de resposta
de algum segredo jamais escrito.

A história dos meus dedos
é mais simples:
tem a biografia do teu corpo
e nada mais.

24.10.2007

terça-feira, 21 de abril de 2009

Não se aproxime demais

Não se aproxime demais
que estou com data de validade
vencida

Que estou com a nacionalidade
perdida

Que estou com as malas
vazias

Não se aproxime demais
que ao menor toque
revido

Que ao menor sussurro
meu grito

Recife, 21.4.09