6.23.2009

Cacasiana

Daqui a pouco
volto para mim.

Esse amor comigo
nunca chegou ao fim.

5.29.2009

Doação

Vou doar minhas cicatrizes.
Sobrará pouco do corpo
a alma será entregue
completamente.

Depois, o riso
o objeto mineral
atento e espumoso.

Que sei de mim?

Que coisas minhas
posso doar sem ter?

Minhas cicatrizes
são apenas manchas
no pó da eternidade.

As estrelas riem
o sol exaspera
em sua jornada infinita.

Os animais me olham
com desdém e indulgência.

Não, melhor nada doar.
Olhar minhas cicatrizes
como quem olha um armazém
de secos e molhados
escolhe tudo
e não leva nada
e segue completamente.

Mercado público de São José do Belmonte, 27.05.09

5.23.2009

A história dos meus dedos

A história dos meus dedos
tem milhares de sombras
formas desiguais,
erupções, cortes.

A história dos meus dedos
tem acenos para o Atlântico abstrato
o desejo de resposta
de algum segredo jamais escrito.

A história dos meus dedos
é mais simples:
tem a biografia do teu corpo
e nada mais.

24.10.2007

4.21.2009

Não se aproxime demais

Não se aproxime demais
que estou com data de validade
vencida

Que estou com a nacionalidade
perdida

Que estou com as malas
vazias

Não se aproxime demais
que ao menor toque
revido

Que ao menor sussurro
meu grito

Recife, 21.4.09

4.06.2009

Ausência

Ver o traçado das rotas
o movimento mineral
das folhagens

Ter nos olhos a cor do cobre
mesmo que fosco
mesmo com cinco graus
de ilusão

Finalmente, sorrir.

Sorrir a abundância
das coisas que se perdem
pela ausência de raízes.

Goiana, 31.3.09

3.05.2009

Mínimo 1

São intenções gastas
gestos de penumbra
cordões que se atrevem
ao clarão.

E ali onde repousa teu corpo
o silêncio como um rei.

3.01.2009

Onde cabe o amor

Por Samarone Lima

Cabe num pires o amor
Não na xícara, no açucar,
na colherinha.

Cabe num pires o amor.

No pires que guarda as sobras,
que fica com as manchas
que aguenta pancadas em silêncio.

Cabe num pires o amor.

No pires que guarda as sobras,
as manchas
que aguarda em silêncio.

Cabo, 11.02.2009